Toc. Toc. Bom dia. Ele tinha três olhos. Bom dia. E me disse. Com um dos olhos sorridentes. Disse. Sorrindo com a boca também. Que eu deveria levar a caixa. Mostrando os dentes. Para mim. Levar para outro lugar. Aquela caixa. Não poderia ficar aqui. Comigo. Ou. Ali. No quarto estrangulado pelo lençol. Coberto. Pela escuridão. E o lençol. Mas ela não é minha. Agora é. Para onde? Qualquer lugar. Menos aqui? Exato! Qualquer lugar. Onde? Qualquer um. Onde? Menos aqui. Fechei a porta. Ele fechou o olho. Azul. O céu estava azul. E o sol quente. Com a caixa. Embrulhada. Com a caixa. Embaixo dos braços. Aquela caixa. E eu. Onde iria? Posso ficar aqui. Neste hotel não permitimos. Uma caixa? Exato. Uma caixa é só uma caixa. Aqui não. Obrigado. Desculpe. E aqui. Só sem. Sem a caixa. Sem nenhuma. Caixa maldita. Andei. E o olho. E o céu. E o azul. E o sol. E a maldita. Todos. Comigo pra lá. Pra cá. Sem direção. Resolvi. Abaixei. Fingi amarrar o cadarço que não existia. Eu. A caixa do lado. E o sapato. Sem cadarço. Levantei. Eu. E o sapato. Sem a caixa. Deixada. Aqui e depois ali. Logo ali. Longe de mim. Não sei de caixa nenhuma. Nunca vi. Caixa? Que caixa? Temos suas impressões digitais. Temos olhos que te viram. Três, depois dois, mais dois. São sete. E uma caixa. E uma pessoa. Você. Imaginei diversas situações. Detetives. Repórteres. Foi encontrada uma caixa com ma cabeça. Foi encontrada uma caixa com uma bomba. Foi encontrada uma caixa. Suspeita. A polícia vai investigar. Na televisão. Eu nos jornais. Meu rosto que tentei esquecer. No espelho. Meu corpo que deveria ter virado fumaça. No último gole de vinho. Não posso deixar aquela caixa. Ali. Sozinha. Voltei. Correndo. Tentando acender um cigarro. Tentei correr. Não consegui acender. Não tinha cigarros. Não tinha fogo. Não tinha mais caixa nenhuma. Cadê a caixa? Sumiu. O homem de três olhos. Foi ele. Ou foi o os dois com dois olhos? A rua estava deserta. Agora era eu e o azul. Só. No lugar da caixa. Um cartão. Um número anotado. E do lado um telefone. Nunca atenda ao telefone foi o que sonhei. Mas era diferente. Eu tinha um número. E um telefone público. Eu tinha uma moeda. Eu tinha a curiosidade. Disquei. Chamou. Atendeu. Alô? Droga! Desculpe. Não é culpa sua. Esta bem. Preciso desligar. Espere. Não posso. Só uma pergunta. Sem perguntas. Não desligue! Não podia ter atendido o telefone. Como? Desligou.

Cap. 13
Fevereiro 17, 2009Alô? Sim. Sou eu! O que? Não… Era mentira. Como assim? Eu sei! Eu esqueci! Desculpe! Desculpe

Cap. 12
Fevereiro 17, 2009Sonho. Sonhei com ela. Ela estava lá. No meu sonho. Lá. Onde ela não deveria. Estar. Ser. Aqui. Num sonho. Meu. Meu sonho! Em quantos sonhos meus. Ou de outros. Em outros sonhos. Ela já esteve. Em outros sonhos de outras pessoas. Ela estará? O sonho foi rápido. Não me lembro bem. Nunca. Lembro. De algumas partes. Flashs. Alguns sem sentido. Nesse. No meu sonho. Espero que último. Era ela. Mas não era. Ela era diferente. Senti. Algum sentimento. Estranho. Era. Mas… Não era… Ela. O sonho foi dividido em três. Partes distintas. Veio assim. Até mim. A primeira parte. Flutuando. Saudade. Foi o primeiro. Saudade imensa. Chegou perto. Olhar sensual. Mais saudade. Sabia que era um sonho. O primeiro flash dos três. Foi dividido em mais partes. Ela escondia algo. O primeiro do primeiro. Falou que iria para um lugar distante. O segundo do primeiro. Chegou perto. Senti seu pescoço. Contra meus lábios. E perfume. O de sempre. O terceiro do primeiro. Um sussurro. Algo que não entendi. Ou. Algo que não lembro. Nunca. Lembro. De algumas partes sim. De outras não. A segunda parte. Ela me revela. Aquilo. Não poderia imaginar. Não poderia saber. Outra sensação. Medo. Senti medo. Muito. A caixa. Ela segura a caixa. Ela me entrega a caixa. Como ela conseguiu? Como achou? Por que me entrega? Medo com perguntas. Muitas perguntas. Na terceira parte. Acordo. O medo. Sempre. Acorda. Sempre. Com ar rarefeito. Com espasmos. Com pulos. Com olhos vitrificados. Acordo. Outro dia. Não me lembro também. Ando esquecido. Alguém me disse: Duas coisas. Nunca faça. Nem uma. Nem outra. Será que foi em algum sonho? Ando dormindo demais. Ando dormindo para todos os lados. Tudo parece sonho. E pesadelo. Sonho bom. E pesadelo. Duas coisas. Primeiro. Nunca acredite em seus sonhos. Eles mentem. Quem diria isso? Será que foi sonho? Será que era uma mentira também? Será… Segundo. Num segundo. Esqueço. O segundo… Ando dormindo muito. Ando esquecendo muito. Ando perdido. Ando com medo. Ando sonhando. Preciso acordar. Preciso lembrar. O segundo… Duas coisas. Nunca faça. Nem uma. Acreditar num sonho. Nem outra. Atender o telefone. Triiiiiiim! Era isso! Triiiiim! Lembrei!

Cap. 11
Fevereiro 17, 2009Agora. Eu tenho uma caixa. O que tem dentro? Não sei. Talvez não queira saber. Medo? Talvez. Hoje prefiro ficar aqui. Em cima do muro. Não decidir. Não escolher. Não vou abrir. O que tem dentro da caixa? Uma bomba! É o que vou responder. Um vibrador! Uma cabeça! Cuidado ainda sangra. Pode manchar suas roupas. Pode. E vai. Estragar seu vestido. Aquele que você tanto gosta. De flores. Estampadas entre linhas. Tortas. As flores e as linhas. Não sei. Não sei o que tem na caixa. Não sei porque você gosta tanto desse vestido. Não quero saber. Qualquer coisa… Diga que eu não sei de nada. Diga também. Outras coisas. Diga que também não quero entender. Fale sobre a cabeça, sobre a bomba. Esqueça o vibrador. Não fica bem para uma dama. A caixa me olha. Convida-me. Vem! Abra! Não! Viro os olhos. Olhos em outro canto. No reflexo do espelho. Vem! Abra-me! Não! Ela me persegue. Aquela caixa maldita. Preciso esconder. Mas não posso tocá-la. Não posso. Eu vou abrir. Sei que vou. Se você estivesse aqui. Se você estivesse. Aqui. Comigo. No meu lugar. Abriria. Não vou. Ela me persegue. Venha! Ela sabe o que sinto. Sabe que a quero ver por dentro. Tirar seu lacre e ver. Sentir. Cheirar o que tem em seu interior. Apalpar. Saber se é áspero. Se é macio. Se tem gosto. Odeio esse seu vestido. Preciso fugir do quarto. Preciso odiar mais ainda seu vestido. De flores tortas. De linhas tortas. Em seu corpo tort… Não. Minto. Venha aqui e me abra. Novamente. Ela me chama. A caixa. Insinua-se. Num lapso de pensamento. Numa pausa de raciocínio. Torta. Odeio esse seu vestido. De papelão. Quadrado. Sem curvas. O que? O que eu estou pensando? Não! Flores! Preciso me lembrar. De Flores. Tortas. Flores de papel. Não! De tecido. Aquela mulher. Aquela voz. Deu-me. Presente ou Castigo? Uma caixa. Não posso abrir. Vou escondê-la. Como? Não posso tocar. Nem olhar diretamente para ela. Não posso. O desejo. A curiosidade. Dois dos passos antes da morte. A morte. Uma bomba? Minha morte. Uma cabeça. A morte de outrem. Quem? Levanto. Olho para o chão. Não olho a caixa. Pego. Algo. Olho. Um lençol. Vou. Na direção da caixa. Sei onde ela está. Isso… Venha até mim. Vou. Isso… Mais perto. Vou. Um passo. Dois passos. A distancia é curta. Três passos. No quinto. Abra-me… Ou no sexto. Eu chego. Sexto passo. Aqui. Lanço um ataque à caixa. Com o lençol. Cubro. Enrolo. O que é isso? O que você pensa que está fazendo. Só pode ser. Tem que ser. Uma cabeça. Ela fala. Comigo. Para mim. Reclama do meu ataque. Mas de quem? Enrolo no lençol. Amarro. Estou ficando… Sufoco. A voz. A caixa. A cabeça. Sem ar. Morra! Socorro! Morra! Socorro! Toc. Toc. Ela grita. Socorro! Toc. Toc. Caixa maldita. Alguém bate na porta. Aperto mais o lençol. Ela para de falar. De gritar. Não há reação. Você está bem? Precisa de ajuda? Não há sangue manchando os lençóis. E eu não abri seu lacre. Vou chamar a policia! Agora abro os olhos. Vejo. A caixa esta imóvel. Onde a deixei. Quieta. Silenciosa. Tem alguém aí? Tem! Eu! Por que? Nada… É que eu ouvi… Ouviu errado. Ele passa os olhos sobre o quarto pequeno. Desculpe o transtorno senhor. Ele vê apenas uma caixa. Coberta com um lençol. Não foi nada. Ele não sabe de nada. Nada. Boa noite então. Ainda bem que a caixa não sangrou. Boa noite. Fecho a porta. Tranco com os trincos. Diversos. Para que tantos? O suor escorre. Cai no meu olho. Passo a mão e suspiro. Aliviado. Sem corpo. Sem crime. Sem sangue. Sem evidencias. Uma cabeça. Na caixa deve ficar. Quieta. Morta. Para não chamar atenção. Toca o telefone.

Cap. 10…(sem música por enquanto)
Janeiro 26, 2009Um olho se abre. Ofuscado. Ei! Acorde! Dois olhos ofuscados. Acordei ainda sonolento. Tenho algo. Para mim? Para ti. Peguei. Isso! Pegue. Segurei. O que é? Não abra. O que é? Só abra longe daqui. Olhei o pacote. Por que? Longe de mim. Por que? Faça! Um pacote lacrado. E minhas dúvidas? São apenas suas. E você? Ela levanta-se. Não posso responder. Mas… De costas para mim. Eu já disse. E… Tentando ainda. Basta! Onde você vai? Tinha que perguntar. Embora. Pra onde? Longe de você! Não faz muito sentido naquele momento. Quem é você? Sou só a cantora. Ela canta maravilhosamente… E ele? Só seu amigo. Ele não é meu amigo. É o que eu acho. Não é meu também. Ela tem razão. Vou abrir agora esse pacote! Já te instruí, faça o que quiser agora! Abrindo a porta. Volte aqui! Vou cantar em outro lugar. Fechando a porta. Ei! Cutuco. Ei! Dou uns tapas no rosto dele. Acorde! Eu! Ainda sonolento. Acorde! Eu! Onde… Ainda sonolento. O que? Quem… Cadê a música? Talvez ele saiba de algo. Me escuta! O que tem nesse pacote? Não sei! Talvez não saiba. Por que você não me diz o que tem ai? Eu não sei! Eu também não. Não? E por que está segurando então? A cantora… Ela parou de cantar faz tempo? Não sei! Você não sabe nada? Não! Então por que me acordou! O que você ta falando? Bahhhh! Vamos levante! Não! Tem uma bomba nesse pacote! Onde? Nesse pacote! Como assim! Certeza que ele não sabe de nada! Vamos logo! Agora! Deixa isso aí! Não! Você quer levar a bomba? Eu preciso! Você tá louco? Doidão! Vai sozinho então! Calma. Eu não quero morrer! Calma! Eu não vou morrer! Calma! Preciso de mais tempo! Calma! Calma o que? Não tem bomba nenhuma aqui! Claro que não! O que é então! Eu não sei! Ah que ótimo! E como eu posso saber que não tem uma bomba de verdade?! Não faz tic TAC! Tica TAC? Você é retardado? O que? A bombas de filmes é que fazem tic TAC! Mas… Mas o que? Você ta querendo me matar? Vamos embora daqui! Não vou pra lugar nenhum com você segurando uma bomba! Não é uma bomba! Só por que não faz tica TAC? Exato! Cala boca e explode sozinho! Não é uma bomba! Eu não vou a lugar nenhum com você! Então eu vou…Vai logo explodir em outro lugar. Ou ele não sabe de nada, ou realmente tem uma bomba aqui. Boooom! Começo a transpirar e saio do lugar sozinho. Boooom! Ele fica gritando! Booomm! Sozinho… Boooom! E eu com um pacote… Booom

Cap. 9……(ouvir I know you know – Esperanza Spalding)
Novembro 19, 2008Eles chegaram. Esperava. Demoraram. Eles chegaram suados. Cansados estavam. E eu ali. Cantando. Esperando. Eles chegarem. Enfim. Chegaram. No fim sempre chegam. Em qualquer lugar. Em lugar algum. Aqui. Onde eu cantava. E…. Esperei. Cantando sem parar. Sempre. Até o fim. Até a chegada. Aqui. E… Eles me ouviram. Na melhor parte. Muitas partes. De muitas músicas. Nas melhores. Encantadora. Eles devem ter pensado. Encantados enquanto eu cantava. Encantamento para os ouvidos. E na última nota. No último sopro. No segundo seguinte. Caíram. Se deitaram e dormiram. Ainda escutando. Em sonhos. Esses sons. Em sonhos. Encantador. Foi o espetáculo. Foi o meu sonho. Acordado. Dormindo. No fim. Tudo é a mesma coisa. O mesmo sonho. O mesmo som. Apenas sensação. Boa e tranqüila. Sensações diversas. Misturadas. Como num sonho. Doce. Engordando. Seus sonhos não eram apenas sonhos. Era encantador. Com trilha. Com trilhos. Com sons. Sonora. Minha voz nos seus ouvidos. Lindos. Lindas melodias. Palavras contra e a favor de seus ouvidos. E você vem até aqui e diz. Devagar. No ritmo. Da minha voz nos seus ouvidos. Linda. Sua voz. Você. E repete para mim em mi. Que acha linda. Minha voz nos seus ouvidos. Quase sussurrando. Aos meus. Que sou linda. E repete sem dó. Repete sem ré. Que sou linda. Como sol. Eu e minha voz nos seus ouvidos. Repete com fá. E fecha os olhos. Ainda repetindo sem lá. Linda. E abre a boca. Linda. E dorme. Essas foram as primeiras. As últimas. Todas as palavras. Uma só. Em alguns tons. Falando de minha voz, você. Chamando de linda. Linda. Linda. Até que…Minha voz. Você… Dormiu. Sonhando…

Cap. 8……(desligue o som)
Outubro 30, 2008Um olho se abre. Ofuscado. Ei! Acorde! Dois olhos ofuscados. Acordei ainda sonolento.

Cap. 7……(ouvir Smalltime shot away – Massive Attack)
Outubro 30, 2008Nublado. O frio. Que se chocava contra o meu rosto. Quente. Ardente e em febre. Lembrei daquele dia. Lindo. Suor e sexo. Nunca mais. Agora. Só nuvens. E o frio. Assim. Só meu. Assim. Só dela. Agora corro. Passo a passo. Tentando me achar. Agora. Querendo te encontrar. Sem eu. Querendo se chocar no seu corpo. No próximo passo. Querendo te derrubar. Na próxima esquina. E eu. Correndo. E eu. Caio. Na próxima esquina. Contra o seu corpo. Contra aquilo que somos hoje. Contra tudo que aconteceu. Naquele dia. Corro. Não sei pra onde. Corro. E lembro. Não sei pra onde. Onde estamos indo? Ainda não. Onde? Ainda não sei. Corro. Apenas corro. Paramos. Chegamos. Lugar escuro. Uma canção qualquer. Um foco. E uma voz. Cantando. E eu. Cansado. Agora parado e sem voz. Uma voz cantando. Não era a minha. Nem a dele. Linda. Ela e a voz. Recortada. Refletida. E o escuro. Fechei os olhos. Abri os ouvidos. Desisti do foco. Da luz. Tudo. Menos da voz. Cantante. Ele não disse nada. Preferiu deixar o silencio embalar a voz. Linda. Ela também havia desistido. Do foco. Da luz. Olhos cerrados. Boca entreaberta entre um Mi e um Si. E o escuro recortado. E o silencio boquiaberto. O tempo. Não acelerava. Não parava. Estava ali também. Como nós. Estagnados num momento. Impar. Par. Inocente. Era ela. Que brincava com nossos ouvidos. Sentidos. Sentindo o som. Onde tudo parecia. Sentindo o levitar. Dos pés. Dos dela. Dos dele. Dos meus sentidos. Som. Sem pensar. Som. Sem querer. Deixado ali. No ar. Flutuando. No ar. Que ela respira. E solta. Som. Mais e mais. Sons. Nos meus. Nos seus, nos nossos. Ouvidos. Todos para ela. Somente ela. Som. Muito som. Coberta de notas. Que esquenta. Os meus. Os seus. Os nossos. Ouvidos. Antes frio. Todo. Agora esquenta. Com som. Esquenta Com sol. Esquenta com mi também. E até com dó. Ré. Antes não tinha percebido. Ré não tinha lá. Uma voz cantando. Não era a minha. Nem a dele. Linda. Ela e a voz. Recortada. Refletida. E o escuro. Fechei os olhos novamente. Abri os ouvidos. Desisti do foco. Da luz. Tudo. Menos da voz. Cantante. Ele não disse nada. Continuou da mesma forma. Preferindo deixar o silencio embalar a voz. Linda. Ela também havia desistido. Do foco. Da luz. Olhos cerrados. Boca entreaberta entre um Mi e um Si. E o escuro recortado. E o silencio boquiaberto. O tempo. Não acelerava. Não parava. Estava ali também. Coberta de notas. Que esquenta. Os meus. Os seus. Os nossos. Ouvidos. Antes frio. Todo. Agora esquenta. Com som. Esquenta Com sol. Esquenta com mi também. E até com dó. Ré. Antes não tinha percebido. Ré não tinha lá.

Cap. 6…….(ouvir Let’s Be Still – Yo la Tengo)
Outubro 27, 2008Era cedo. Ou era tarde? Meio dia talvez. E eu. E você. Ali. Aqui do meu lado. Queríamos ficar onde o sol pudesse nos alcançar. Decidido. Empurramos cadeiras, estantes e a cama onde o sol pudesse pousar. Abra as janelas! Deitou-se reluzente. Quente. E ficou ali esperando. Dançando sobre os lençóis e querendo. Ardente. Abra as cortinas. Tirei a camisa. Lançou-me um raio. Tirei as calças. Um reflexo. Brilhou seus olhos que ofuscaram os meus. Cego sabia. Sua boca úmida. Essa cegueira branca de papel que queria. Sua língua quente. E o meu suor. O sol é assim. Nosso. Só nosso. No branco do lençol, no branco da sua pele, no branco. As janelas abertas onde os vizinhos pudessem ver. Aquele sol. Nosso. Meu, seu e dos vizinhos. Tirem. Seus óculos! Seus olhares e binóculos. Nosso. Só nosso.Que observavam. O sol. Banhando seu rosto. Reduzindo meus olhos. Banhando suas costas. Espelhando a luz pelas paredes. Reflexos em movimento. Banhando suas coxas. Muita luz. Banhando seus seios. Muito calor. Banhando. E suspiros. Doces sabores. E gemidos. Seus, meus e dos vizinhos. Perplexos por tal nascer de sol. Tirem. Seus óculos! Seus olhares e binóculos. Se o nascer é assim. Lindo assim. O poente no fim. Como será? Será? Perguntavam os vizinhos boquiabertos. Ei! Esse sol é nosso! O fim sempre é triste. O começo sim. É sempre assim. Lindo quando é de sol. Queríamos ficar onde ele pudesse nos tocar. Na pele. Aqui ou aí. Nos cabelos. Tanto faz. Vem comigo. Vem agora. Empurramos o fogão, a geladeira e a cama onde o sol pudesse ficar. Conosco. Até o fim até a noite chegar. Mas naquele momento não pensávamos nisso ou naquilo. Nada de futuro. Éramos presentes um para o outro e o sol nos embalando. Toma esse é seu, toma essa é sua. Vocês são e sempre serão. Disse o sol. Assim, só pra gente.

Cap. 5……[ouvir swastika eyes jagz (kooner mix) - Primal Scream]
Outubro 22, 2008Ei! Venha por aqui! Parava. Eu corria. Ele respirava fundo. Corria também. Parava novamente. Por aqui! Voltava a correr. Fumantes… Vem logo! Virei à esquerda. Um. Dois. Quase três minutos depois ele vira. Mais uma esquina e a demora. Ressaca. Só pode ser. Outra esquina. E ele gritava. Onde é isso? E ele resmungava. Falta muito? E se indagava. Onde estou indo? Ou. Quem eu estou seguindo? Perguntas sem respostas que ficam no passo anterior. Na curva da esquina. Deixada na calçada. Encontrei-o morto. Na calçada. Mas não foi por causa do cigarro. Perto do bueiro. Estirado entre a lama e os passos dos transeuntes. Fumaça. Não era do cigarro. Entre a parede e a sarjeta. Fumaça dos carros. Diante de passos de estranhos e os meus. Fumaça dos caminhões e das motos. Era dia. E eu seria seu despertador. Acorde! Um movimento. Acorde! Um olho se abre. Ofuscado. Ei! Acorde! Dois olhos ofuscados. Acordou ainda sonolento. Vou te pagar um café! Algumas palavras sem sentido. Você toma café, não? Mais palavras derramadas na calçada. É… Vai ter que tomar. Lavou o rosto. Bebeu o café. Comeu uma torta. Mas mesmo depois. De acordar e se alimentar. Mesmo assim. Continuava morto. Lavou o rosto. Mas aquela expressão. Morto. O rosto não escorreu pelo ralo. Morto. Bebeu café. Mas pouco. Comeu uma torta e não sentiu prazer. Era o mesmo de outros dias. Estava morto. Foi aí que tive a idéia. Correr. Ei! Correr muito. Venha por aqui. Correr como nunca. Me segue! Quero explodir seus pulmões. Por aqui! Quer fazer seus músculos arderem! Vem logo! Quero seu sangue circulando. Virei à esquerda. Ele também. Virei outra esquina. Demorou. Dez. Vinte. Trinta segundos depois. Ele também. O que você está sentindo? Cansaço! O que você esta sentindo? Dor! O que você esta sentindo? Fadiga! O que você esta sentindo? Meu corpo todo! Paramos. Suor. Ele colocou as mãos nos joelhos! Suor e respiração acelerada. As mãos na testa. Inspira. Tirando o suor. Expira. As palavras tentam sair. Inspira. Não saem. Expira. Parece ser uma pergunta. Inspira. Mão no joelho e no chão. Expira. Senta-se. As palavras tentam novamente. Aaaaah… Dor. Cheeegg… Perdem-se na inspiração. Engasga e engole a saliva que não tem. Tentam novamente. Perdem-se na expiração. Tentam e conseguem. Chegamos? Não. Não? Esse é só o começo. Começo de que? Você vai saber. Vamos! Mas para onde? Ele está curioso. Já disse. Não disse. Ele está nervoso. Disse que já vai saber. Quando? Muito nervoso. Já disse! Eu perguntei quando! Vou piorar. Para que tanta pressa? Você não está? Não estou não. Então por que me fez correr? Exercício! Que? Ele vai me xingar. Exercício! Seu filho da p… Dor.